By carreira
Estudos recentes e a análise conduzida pela Carreira confirmam que um grupo restrito de universidades e institutos concentra o maior peso junto das empresas. A Universidade Agostinho Neto (UAN), o Instituto Superior Politécnico de Tecnologias e Ciências (ISPTEC) e a Universidade Católica de Angola (UCAN) ocupam a linha da frente, assumindo-se como as “Big Three” do ensino superior angolano.
Apesar da multiplicação de universidades e institutos, apenas quatro a cinco instituições conseguem assegurar uma procura consistente por parte do setor produtivo. A UAN mantém-se como referência histórica, enquanto o ISPTEC se impôs pelo perfil técnico e prático e a UCAN pelo prestígio académico e ligação às multinacionais. Atrás deste núcleo duro, começam a ganhar espaço a Universidade Internacional do Cuanza (UNIC) e a Universidade Lusíada de Angola (ULA).
Reputação e empregabilidade
O prestígio académico não basta para assegurar colocação no mercado. As empresas avaliam também a qualidade da formação prática, a rede de estágios e a ligação das universidades ao sector empresarial. Por isso, cruzámos dois critérios: reputação (reflectida em rankings, prémios e notoriedade) e empregabilidade (medida pelo grau de integração dos formandos em empresas e instituições).
A tabela comparativa resume este retracto:
Instituição/Curso
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Reconhecimento e Ranking
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Destaques de Empregabilidade
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UAN (pública geral)
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Principal universidade nacional; entre as top no Webometrics. A Faculdade de Economia atingiu quase 100% de empregabilidade dos seus licenciados.
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Parceira de multinacionais, como a Huawei, que em 2025 recrutou recém-graduados diretamente no campus. Grande peso histórico no recrutamento estatal e privado.
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ISPTEC (tecnologia/gestão)
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Líder no AD Scientific Index em 2023; nota “A” no U-Multirank em estágios.
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Serviços de Carreira internos dedicados a conectar estudantes a empresas. Forte reputação em engenharia e gestão pública.
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UCAN (privada geral)
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Prestígio consolidado em áreas como Direito, Administração e Economia.
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Realiza Feiras de Emprego anuais, reunindo multinacionais como PwC, EY, KPMG e Deloitte à procura de talentos.
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UNIC (Cuanza) (privada geral)
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Segunda melhor universidade do país no ranking Webometrics 2024.
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Parcerias internacionais e aposta em inovação começam a traduzir-se em maior absorção no mercado nacional.
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ULA (privada geral)
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Universidade privada consolidada há mais de 20 anos.
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Já lançou mais de 7.000 licenciados; cursos como Gestão, RH e Direito têm ligação direta a empregadores privados.
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A Universidade Agostinho Neto (UAN) continua a ser o maior polo de formação superior do país, com forte absorção tanto pelo sector público como pelo privado. Dados recentes indicam que, em faculdades como a de Economia, a taxa de empregabilidade dos licenciados se aproxima dos 100%. Além disso, o facto de multinacionais como a Huawei realizarem acções de recrutamento na UAN reforça a sua centralidade.
Já o ISPTEC tem afirmado uma identidade distinta, apostando em currículos práticos e numa forte ligação com as empresas. Não por acaso, liderou o ranking científico AD Scientific Index em 2023 e obteve nota máxima em critérios de estágio no U-Multirank, indicadores que refletem a preparação dos estudantes para o mercado real.
A UCAN, por sua vez, destaca-se pela proximidade com multinacionais. As suas feiras anuais de empregabilidade tornara-se palco de encontro entre estudantes e gigantes do sector financeiro e de consultoria, como PwC, EY e Deloitte. Esta relação directa garante que os seus licenciados sejam vistos como candidatos “preferenciais” em determinadas áreas.
A UNIC, no Cuanza, é um caso de ascensão rápida. Apesar de jovem, a universidade já alcançou a 2.ª posição nacional no ranking Webometrics, sinal de dinamismo e projecção académica. Esse prestígio académico começa a ser convertido em maior procura no mercado de trabalho, sobretudo em sectores ligados à inovação digital.
Por fim, a Universidade Lusíada de Angola (ULA) mantém um contributo consistente, tendo laçado em Janeiro de 2025 360 novos licenciados, somando mais de 7.000 desde a sua fundação. Cursos como Gestão, Direito e Recursos Humanos são os mais valorizados pelos empregadores privados, o que reforça a sua presença no ecossistema de contratação.
O outro lado da moeda: mercado restrito e selectivo
Embora os números destas instituições sejam expressivos, importa destacar um dado estrutural: Angola absorve apenas 20% a 25% dos recém-graduados no mercado formal, segundo estudos de empregabilidade. Isso significa que, além do mérito individual, a reputação da instituição pesa fortemente na triagem dos candidatos. Não surpreende, portanto, que empresas e recrutadores concentrem as suas escolhas em apenas três ou quatro universidades nacionais, relegando outras para segundo plano.
O que está em jogo
O retracto mostra que a formação superior em Angola está a viver um processo de diferenciação, ou seja, poucas universidades conseguem manter prestígio e empregabilidade consistentes, enquanto outras lutam para ganhar a confiança dos empregadores. Para os estudantes, isso significa que a escolha da instituição pode definir, de forma decisiva, as suas oportunidades profissionais. Para as empresas, é uma forma de reduzir riscos, apostando em escolas que já provaram a qualidade dos seus quadros.
O desafio, no entanto, permanece: como alargar a qualidade e a empregabilidade a mais instituições, de modo a garantir que o ensino superior angolano responda às exigências de um mercado em transformação? Essa é a pergunta que vai marcar os próximos anos.